Ritmos bio-psíquicos

Ritmos bio psíquicos.

Toda a natureza tem ritmos. A sequência do dia e da noite, as estações do ano, o ritmo, cardíaco, respiratório, fazem parte desses ritmos.

No entanto existem ritmos biológicos, nos quais o comportamento humano tem mais influência. Já vimos no capítulo anterior que o estado psíquico influi na libertação dos mediadores químicos na corrente sanguínea, com as consequentes alterações biológicas que os caraterizam.

Os comportamentos repetitivos, causados pela cadencia rítmica da vida influem nos ciclos biológicos. Por exemplo uma pessoa que trabalhe num horário diário certo, tem os seus ciclos biológicos afinados com os ritmos diários. Se a pessoa trabalha por turnos, é mais difícil sincronizar os ritmos biológicos com os estímulos da luz solar, ruído e agitação da vida urbana. Daí que as pessoas que trabalham nessas condições tenham maior tendência a certas perturbações bio psíquicas que vão desde a carência a vitamina D, perturbações alimentares, perturbações do sono, stress, obesidade, fadiga, etc.

No entanto, há pessoas que mesmo trabalhando em horários diários levam ao extremo os limites dos ciclos biológicos. É algo frequente algumas pessoas viverem tão à base de adrenalina e cortisol durante a semana, que quando se relaxam ao fim-de-semana caem num tal cansaço e estado de torpor que são capazes de dormir horas a fio.

Conheço outros casos em que as pessoas trabalham tanto durante o ano, que quando chegam aos primeiros dias de férias, passam dois e três dias que só comem e dormem.

Outro exemplo é o caso dos estudantes, que vivem numa pressão extrema antes da época de exames  criando necessidade de libertar-se em certos comportamentos de massa. Procuram estar presentes os festivais de rock, o “enterro do ano”, etc, às vezes recorrendo ao uso do álcool e outras substâncias afins. Essa é a forma que frequentemente encontram, para se reequilibrar.

Não querendo fazer qualquer juízo de valor moral sobre o comportamento humano, apenas estou a ilustrar alguns sintomas de ritmos de vida, que ao perpetuarem-se vão criar consequências. Porque em ultima análise, a bem ou a mal, de forma harmónica ou desarmónica, tudo acaba por se equilibrar. 

Se queremos que o nosso corpo e mente funcionem de forma harmónica, temos que observar e respeitar os nossos próprios ritmos naturais, e tentar ao máximo fazer a nossa vida em função deles. E isto tudo, apesar da atual organização social, urbana, familiar, laboral, se ter afastado desses ritmos naturais.

Não podemos mudar a sociedade, nem o que está à nossa volta. Mas o local onde somos totalmente livres para fazer mudanças é no nosso interior. Por isso os grandes Mestres do passado sempre nos disseram que a liberdade está dentro e não fora de nós mesmos.  

No processo de tentar encontrar a ressonância certa nos nossos ritmos bio psíquicos existem hoje numerosas técnicas, atividades e terapias que vão desde a ida recorrente aos ginásios, hábitos de caminhadas, desportos de todo o tipo, reiki, yoga, e, claro está, o Tai Chi Chuan.

O Tai Chi Chuan é uma ferramenta muito completa, pois os seus movimentos obrigam o corpo, emoções e intelecto a funcionarem de forma equilibrada, síncrona e coerente.

Durante a prática todos os ritmos biológicos se sincronizam e equilibram. Desde a frequência respiratória, frequência cardíaca e padrão de ondas cerebrais. Este último é de importância vital no reequilíbrio orgânico e psíquico de todos os ritmos internos.

Todos nós já passámos por experiências do tipo, procurar um objeto desaparecido em situações de stress ou de pressa extrema. Ás vezes acontece que não conseguimos encontrar dito objeto, e mais tarde, numa situação de mais calma ele aparece com facilidade. Porque isto acontece? Precisamente porque quando estávamos em stress, a nossa psique e biologia, estava calibrada numa frequência de “fuga-luta” em vez duma frequência de busca sistemática.

A educação e a formação na sociedade ocidental atingiu patamares de excelência em tudo o que tem a ver com o comportamento das coisas que estão no nosso exterior. Existe e existiu todo um conjunto de pessoas extraordinariamente inteligentes, que fizeram evoluir a humanidade nos últimos séculos.

No entanto, as escolas atuais estão tão focadas no sucesso externo, que esqueceram totalmente a nossa própria educação interna. Precisamente aquela do tipo que se ensinava no mosteiro de Shaolin.

É daí que vem o crescente interesse pela prática da forma do Tai Chi Chuan, pois quem o experimenta percebe inerentemente um reequilíbrio interno que além de ser agradável é saudável para o nosso estilo de vida. Há simultaneamente algo de magnético e atraente nos seus movimentos, que nos faz sentir: “Eu gostava de aprender aquilo”.

Durante a prática do Tai Chi Chuan as ondas cerebrais saem dum padrão onde predominam as ondas beta (18 a 33Hz), para outro onde predominam as ondas alfa (8-13Hz). Estas últimas são de menor frequência e é nessa frequência que nós começamos a exercer um controle sobre a totalidade da nossa psique e biologia. Elas são a porta de entrada ao nosso subconsciente e ao seu magnífico poder sobre o corpo.

Infelizmente, devido ao cansaço a maioria das pessoas passa por esse estado um pouco antes do sono profundo, sem qualquer consciência do processo. Pura e simplesmente fechamos os olhos e adormecemos.

Existem outras técnicas que nos levam a estar na frequência alfa, por exemplo qualquer técnica de meditação. O problema, é que para a maior parte dos ocidentais, é muito difícil monitorizar o seu estado durante a meditação. Muitos que já experimentaram esta prática, relatam que é difícil manter-se acordado. Ou que, para se manter acordado, é difícil manter a mente e corpo sob controle.

É aí que o Tai Chi Chuan ajuda. Pois como é uma meditação em movimento físico, qualquer pequena alteração que saia fora daquele padrão vai repercutir-se no movimento físico. Dessa forma nós temos um feedback constante com o nosso estado interior, pois se saímos do fio de atenção dinâmica, o movimento sai mal.

Com o tempo e a prática, vamos aprendendo a alterar os nossos estados de forma natural e espontânea, dando connosco a reagir à vida de forma mais tranquila, harmónica, calma e equilibrada.

As alterações devem notar-se logo nas primeiras sessões, porém só começam a converter-se em transformações de vida após um período de alguns anos de prática. Portanto como em tudo, é necessário praticar.