Os “três cérebros”

Os “três cérebros”

Em 1970, o neurocientista McLean elaborou a teoria do cérebro trino.

Segundo ele, o cérebro humano divide-se em três unidades funcionais diferentes que têm a ver com as diferentes fases de desenvolvimento do “homo sapiens” :

  1. Cérebro reptiliano, basal ou instintivo que é responsável pelos instintos primários relacionados com a sobrevivência. Existe em todos os répteis e mamíferos incluindo o homem. É ativado em situações de risco físico, agressões, medo, ameaça ou emergência. Nessas alturas faz aumentar os níveis de cortisol, adrenalina e outros mediadores químicos que aumentam a força física, o estado de alerta. Eram muito úteis nos tempos pré-históricos, durante os quais a sobrevivência dependia da capacidade de sobreviver aos predadores. Perante uma ameaça dessa natureza, todo o corpo é preparado para a luta, para a fuga, ou para manter-se escondido e em alerta. Esta unidade cerebral é responsável por três reações básicas: Fugir, congelar ou lutar. As modificações biológicas são tais, que por vezes chega-se a provocar o esvaziamento da bexiga ou do intestino para tornar o corpo mais leve. Daí a expressão popular “borrar-se de medo”!

 

  1. O cérebro emocional com o seu sistema límbico. Esta unidade funcional existe também em todos os mamíferos inferiores e é responsável pelo afeto e pelo comportamento emocional do indivíduo. Nos mamíferos é vital que exista esta ligação emocional do progenitor às suas crias. Sem o afeto, proteção e os elos que se estabelecem na amamentação elas não sobreviveriam. Já os repteis não são assim, pois põem uma grande quantidade ovos deixando-os à sua sorte.

 

  1. Cérebro Racional ou neocórtex que só existe desenvolvido no homem, que é responsável por todas as decisões racionais. É esta unidade que nos diferencia de todos os restantes primatas e mamíferos.

 

É interessante verificar, que este modelo de McLean faz sentido a nível de desenvolvimento anatómico do homem. Visto que o cérebro reptiliano é o mais central, ou mais antigo. O cérebro emocional é mediano e o cérebro racional é o mais exterior.  Isto encaixa na evolução da espécie ao longo do tempo.

Por outro lado, não deixa de ser curioso verificar, que na mitologia grega, o “Cão Tricérbero” é um animal de três cabeças que guardava a entrada do mundo subterrâneo e destroçava aqueles que o tentavam desafiar. Isso leva-nos a refletir, que quando estamos em desequilíbrio dessas três energias, instintivas, emocionais e racionais, entramos num submundo de estados psíquicos pesados e difíceis de ultrapassar.

As agressões a que estamos hoje sujeitos são muito diferentes daquelas que aconteciam na pré-história. Hoje, as situações que provocam a ativação da unidade reptiliana do cérebro não conduzem a uma resposta física tipo fugir ou lutar fisicamente.

Quando existe uma situação stressante na vida, seja pelo trânsito automóvel, seja uma situação no trabalho, ou uma desagradável surpresa familiar, são ativados todos os mecanismos biológicos como no passado. Porém hoje, essa energia não se dissipa numa corrida ou numa luta, como antigamente,  ficando retida e acumulada a nível instintivo, biológico, muscular e psíquico. Daí advêm todas as consequências que bem conhecemos: disfunções do sistema digestivo, cardiovascular, nervoso e músculo-esquelético.  

Hoje o cortisol e a adrenalina não encontram utilidade prática como no passado, para fugir ou lutar, mas continuam a ser lançados na corrente sanguínea como respostas automáticas a frequentes situações do dia-a-dia. Essa é uma das principais razões para a ocorrência de certos tipos depressões, dores musculares, tensão e perturbações digestivas.

Se não dermos atenção a estes sinais e sintomas, eles tendem a somatizar-se de forma crónica difícil de reverter.

Para terminar este capítulo, nada melhor que citar Lhurton Collins quando disse:

“A metade dos nossos erros na vida vem do facto de que sentimos quando devemos pensar e pensamos quando devíamos sentir.”